sábado, 17 de novembro de 2012

FONTE: BLOG RAFAEL PEÇANHA


Dublado ou legendado?


Publicado no Jornal Folha dos Lagos em 17 de novembro de 2012


Na semana que passou, a vereadora eleita Rose de Aires, do PT do B, perdeu sua cadeira por conta da validação dos votos de Jorginho (PMDB). Os mais de 800 eleitores do peemedebista alteraram o valor do quociente eleitoral, ou seja, o número de votos totais que cada partido precisa obter para eleger um vereador. Com o aumento desse quantitativo para cada sigla, o PT do B deixou de alcançar tal número, impedindo que Rose, a segunda mais votada da cidade, assumisse sua cadeira, dando lugar a Braz Enfermeiro (PMDB), já que, com o novo quociente, o PMDB adquiriu o direito de ter uma sobra como vereador, e não somente contar com o edil eleito diretamente, no caso, Zé Ricardo (PMDB).

As legendas são um problema. Para os que sofrem de miopia, para os que têm dificuldades com leituras rápidas e para os que não estão nem aí para os sons originais, as legendas são um problema. Prestar atenção nas imagens, nos sons e nas letras, ao mesmo tempo, requer uma mente múltipla e diversa de impressionar, e nem sempre os mais desejosos em tê-las o conseguem. Mas as legendas que mais atrapalham as vidas dos principais personagens de nosso torpe escrito não estão nas televisões, nem nas telas dos cinemas, e sim nas urnas eleitorais. 

Antes disso, ainda no dia 7 de outubro, o fantasma das legendas pregou peça em outro candidato com núcleo político em Tamoios. O candidato Oséas, do PTN, teve mais de 1600 votos, entretanto, não assumiu a cadeira de vereador pelo mesmo motivo: seu partido não alcançou o quociente necessário para eleger um edil. Oséas, por exemplo, teve mais votos que os dois últimos eleitos somados.

É óbvio que a reflexão mais mística e imediata é a de que um espírito de azar circunda os candidatos tamoienses, ou ainda, que os mesmo escolheram “os partidos errados” para concorrer. A primeira análise nem merece comentários, enquanto a segunda é até plausível, mas improvável, já que, em alguns casos, parece difícil prever os partidos que terão mais ou mais votos.

O problema está exatamente no sistema proporcional de contagem de votos para as eleições legislativas. Como num filme legendado, levam-se em conta uma série de fatores (som original; imagem; tradução; posicionamento, cor e velocidade das letras) ao invés do prezo pela objetividade da película dublada, na qual apenas as imagens e os diálogos são computados na visualização do telespectador.

Uma democracia que, de fato, se comprometesse a ser mais direta e participativa, daria menos peso aos partidos e às legendas, com suas estruturas caducas e pouco populares, e mais valor ao voto popular, independente de contagens mirabolantes. O interessante é perceber que muitos intelectuais “não entendem” porque o povo é tão distanciado das questões políticas. Simples: elas não são populares, como não são populares os cálculos estratosféricos para decidir quem será vereador, ou como não são populares os filmes legendados, mas sim os dublados.

Oferecer à população as obras que ela deseja ver, do jeito que ela quer ouvir, parece ser uma parte da saída para reaproximar o cidadão do jogo político, e assim, quem sabe, reduzir a quantidade gritante de absurdos eleitorais e corrupções politiqueiras que grassam em nosso país.

http://rafaelpecanha.blogspot.com.br/